A autoflagelação da Escrita

Escrever é um ato de autoflagelação, ainda que digam “escreve-se por prazer”.
Somente uma alma leve, tranquila, em total paz consigo é capaz de escrever com prazer, sem o ritual de julgo de si mesmo e de compadecimento pela miséria do mundo. E mesmo tal alma passa por um processo de violência interna, no qual a injúria é cometida como se fosse cócegas na barriga, pequenas mordidas nos lábios na hora do beijo, a leve dor muscular após exercícios físicos. Ou seja, é uma injúria prazerosa, que libera as substancias químicas responsáveis por aplacar a dor no organismo e dar uma nova vitalidade ao ser. É La petite mort. Seres que gozam do privilégio da leveza interna são capazes de produzir as mais belas divagações parnasianas, retratar a beleza oculta do mundo de modo sincero, com ou sem domínio da língua, são pessoas “iluminadas”, que produzem luz própria e resgatam os miseráveis da dor.
Uma alma minimamente atormentada, o que creio ser a maior parte das almas, ao escrever, sofre. A dor que sente é aguda, nem sempre persistente, mas encrustada no coração de quem a tem. Há diferentes graus de sofrimento, sem dúvida, mas como humanidade o nosso sofrimento é um só, e ao mesmo tempo cada coração é um universo. A alma sofredora vive na dúvida, aliás, vive a própria dúvida, é constantemente duas cores opostas do círculo cromático. Quando escreve, seu texto é como o vômito, não que sempre venha de uma vez, inesperadamente, mas tem o mesmo cheiro ácido, provoca a mesma sensação de mal-estar ao ser produzido e, não obstante, tem a capacidade de livrar o corpo de um pedaço de coisa ruim, de algo que não é digerido como deveria. E tal livramento é necessário à alma atormentada, que tende à compaixão por todos os seres e à revolta por todas as injustiças terrenas. Há, no entanto, uma característica positiva essencial da alma atormentada: são seres que sempre almejam os céus. Sim, os céus, não necessariamente no sentido bíblico, poético, transcendental, mas almejam a plenitude e paz de espírito, almejam estar em equilíbrio com a natureza, ver as chagas da terra curadas e desigualdades extirpadas. O Conflito, o sofrimento, a compaixão, a busca pela paz, tudo isso permite à alma sofrida produzir o belo a partir da dor.
Pode-se dizer que a escrita não é um dom, não é um talento natural e nem mesmo adquirido. Adquire-se apenas o domínio da linguagem e o conhecimento do mundo material. A alma escritora, da mais amadora à maior romancista e poeta, é um modelo nu, e produz “A nudez da alma”, como dizem. E a arte é o mais íntimo e vítreo dos reflexos possíveis da alma, extremamente valorosa e necessária a nós.